Ensaios - Séries
Londres - Não Olhar Para Ver
Para capturar com mais naturalidade um pouco do que acontecia nas ruas de Londres, na primeira vez que estive na Inglaterra, em 2009, resolvi não olhar através do visor da câmera. Fiz alguns ajustes de luz e foco e fui caminhando e fotografando pelas ruas, com a câmera na altura da cintura, com a intenção de eliminar o gesto de fotografar com a câmera no rosto e a própria presença do fotógrafo. Assim, foram surgindo personagens e histórias.
Estas fotos fazem parte da série que tem o título de Não Olhar Para Ver. Algumas destas imagens foram publicadas pela revista Solto, nº 57, junto com um texto sobre a viagem. Em 2019, 10 anos depois dos registros terem sido feitos em Londres, este ensaio será publicado em livro impresso.
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ESTRANHOS O SUFICIENTE, EM LONDRES
Dependendo da forma como você chega em Londres - à meia-noite de uma sexta-feira em Picadilly Circus sem reserva de hotel, por exemplo - a sensação inicial pode ser algo como ter sido jogado no último instante do fim do mundo, em meio a uma encenação definitiva das belezas e dos horrores do mais completo caos generalizado, através da sonoridade simultânea e extridente de todos os idiomas, quando tudo o que o ser humano fez de bom ou ruim chegou ao extremo irrevogável da saturação, o ápice do que conhecemos por civilação, tendo como cenário o tom escuro das ruas e dos prédios muito antigos contrastando com as cores ostensivas que surgem revelando serem na verdade protagonizadas por inúmeras pessoas, veículos e todo tipo de agressão publicitária transitando no ritmo intenso de uma dança que pode ser também uma fuga ou uma luta ou uma cópula, formando imagens imediatamente familiares e totalmente indecifráveis de um momento histórico do qual você agora finalmente faz parte, mas nunca teve tanta dúvida se fez uma boa escolha. É realmente impressionante. E depois você se acostuma. E segue em frente arrastando suas malas pelas calçadas em direção a tudo o que Londres pode oferecer.